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A Maioridade do Luto

Com o risco de me tornar repetitivo (vejam os outros posts sobre o ídolo) deixo aqui três vídeos sobre a vida e a morte de Ayrton Senna. A fatalidade completa hoje 18 anos. Os três filmes homenageiam o piloto e dão dimensão da genalidade do homem.

Um é uma homenagem ao Senna feita pelo imperdível programa de TV inglesa, Top Gear ( sem legendas pois a versão legendada não está completa). Outro é um Globo Repórter especial do Senna, e o terceiro, é um programa brasileiro que se chama “A tragédia de 1º de maio”, que, confesso, desconheço a origem.

All we know is he’s called…The Stig.

O Stig original, 2002-2003

“Alguns dizem que ele tem a pele igual a de um golfinho; outros dizem que aonde quer que você esteja, se você sintonizar a rádio 88.4, você consegue ouvir sua respiração”

Bem, tenho certeza que você sabem a quem eu me refiro: ao piloto de testes do  Top Gear, um dos maiores sucessos de audiência da televisão britânica de todos os tempos, e o programa de TV sobre carros mais famoso de todos, The Stig.

O programa na verdade começou nos anos 80, e chegou ao fim em 2001. Renasceu, no formato que fez fama mundial, em 2002. Nos dois primeiros anos da segunda ‘versão’, introduziu o célebre personagem. Um piloto de testes misterioso, sem nome, ultra rápido e silencioso que testa os carros na pista de testes da BBC, vestido totalmente de preto. Em 2004, o personagem começou a se vestir totalmente de branco.

Sua identidade é totalmente sigilosa, e dizem que vários pilotos já fizeram, por um ou dois episódios, o papel de The Stig. Dois ficaram por mais tempo, e são os únicos dois conhecidos pelo grande público: The White Stig (2004-2009), é o ex-piloto de Fórmula 3 e de tantas outras categorias (exceto a Fórmula 1), Ben Collins.

Já o primeiro e original Stig (Black Stig), é o piloto profissional Perry McCarthy, que pilotou na Fórmula 1 na temporada de 1992 e foi o Stig em 2002 e 2003, nas primeiras duas temporadas do Top Gear.

Capacete de Perry McCarthy na Fórmula 1

Mc Carthy fez sua estreia na F1 em Interlagos, corria pela obscura equipe Andrea Moda, companheiro de equipe do brasileiro Roberto Pupo Moreno. Disputou 11 provas, sendo que o GP de Monza de 1992 foi seu último na Fórmula 1. Suas marcas não foram lá das melhores. Das onze provas, em 5 ele não foi nem pré-classificado. Em 3 ele não se classificou e em uma ele foi excluído. Nas duas restantes ele não completou a prova. E aí debandou, e foi virar lenda da televisão no Top Gear.

Perry "The Stig" McCarthy à bordo de sua nada possante Andrea Moda, em 1992

A genialidade de Senna e o talento de Barrichello (post longo)

O circuito de Donington Park

Mais um capítulo sobre as incríveis façanhas de Ayrton Senna. Para os que viram e vibraram, vale a lembrança. Para os que eram muito pequenos ou nem nascidos, vale o conhecimento sobre o que ocorreu naquela tarde chuvosa de 11 de abril.

 

Lembro que vi partes dessa corrida com meu pai (tinha 12 anos), e ele, sempre pessimista com esportes, afirmou, quando começou a chover mais pesado, que o Senna venceria na certa.

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O que Senna fez nesse dia demonstra, mais do que sua habilidade, sua visão tática de uma corrida, sua genialidade em pensar em todos os aspectos e variáveis de uma corrida. Em outras palavras, o aperfeiçoamento de suas vitórias. Pouco mais de um ano depois, ele não teria mais tempo de aperfeiçoar aquilo que parecia já perfeito, mas que, aos olhos do próprio Senna, seriam sempre uma obra inacabada: sua pilotagem.

 

Grande Prêmio da Europa, 1993. Circuito de Donington Park, localizado no condado de Leicester, Inglaterra. Senna não possuía um ótimo carro. Pela primeira vez em sua carreira junto à scuderia McLaren, seu carro era, digamos, bom.

 

Diferente dos ótimos McLaren-Honda que guiou nas temporadas anteriores, ele guiava um carro com motor McLaren-Ford; o HBD7 era de 3900 cc (3.9 litros), mas com oito cilindros (V8). Diferente (para não dizer muito inferior) do MP4/6, com motor Honda RA-121E, 3.5 litros V12, com o qual Senna foi tricampeão do mundo, e, na minha opinião, o melhor carro de Fórmula 1 já feito. A verdade é que a McLaren já não tinha mais tanto dinheiro para bancar o contrato com a Honda e a solução foi, após o final da temporada de 1992, firmar um acordo – quase que de última hora – com a Ford.

 

Bem, voltando às pistas: Senna largou, naquele dia, na quarta colocação, atrás de Schumacher (3º), Hill (2º) e Prost (1º). Tinha, portanto, à sua frente, três pilotos que ou seriam ou haviam sido campeões do mundo, dois em Williams e um em uma Bennetton. Dá-se a largada, e Schumacher bloqueou a primeira tentativa de ultrapassagem de Senna, no instante seguinte ao farol verde. O austríaco Karl Wendlinger, da Sauber, que vinha atrás, na 5ª posição, ultrapassou os dois pilotos e ganhou, instantaneamente, o terceiro lugar, já no comecinho da corrida, na abertura da Red Gate, a primeira das dez curvas do traçado. De repente, Senna começa – de verdade – o Grande Prêmio: Poucos segundos após o início da corrida, já na entrada da terceira curva, Senna ultrapassa com facilidade a Bennetton de Schumi. Antes do final das Craner Curves e no início da quarta curva, Senna ultrapassa Wendlinger, e vai com tudo o que o propulsor Ford agüenta em direção a Hill. Na sétima curva, Ayrton já havia passado o inglês que corria com o número 0, e pisou fundo para alcançar Prost. No começo da décima e última curva, o “cotovelo” (hairpin) Melbourne, o francês já havia sido deixado para trás, e Senna começou a segunda volta já na liderança.

 

Ele seguraria essa posição por outras 75 voltas. Sim, houveram momentos – um ou dois se não me engano – em que Ayrton perdeu a liderança temporariamente devido à troca de pneus. Uma coisa ajudou Senna: começou a chover forte. No começo da prova, o asfalto já estava molhado, é verdade. Mas a água começou a despencar para valer bem depois de Senna já estar em primeiro. Todo mundo achava que o tempo ia abrir, então a maioria dos pilotos começou a prova com pneus slick. Inclusive Ayrton. Porém, o que ele fez foi – assim como fazia com os motores – aproveitar o máximo do pneu seco, indo trocar ele pela primeira vez no momento em que seus oponentes mais próximos já estavam na segunda ou terceira troca (caso de Prost). Com isso, conseguiu abrir uma vantagem grande, e, nas últimas voltas, tinha colocado uma volta, uma volta e meia de vantagem do 3º e 4º colocado. Sua vantagem sob Prost era de um minuto.

 

As leis da física (e do automobilismo) mandam o piloto usar pneus adequados com as condições da pista: secos (seca) e de chuva (ou ‘biscoito’ como era chamado antigamente) quando a pista está molhada ou quando há grande chance de precipitação. Porém, elas não se aplicavam a Ayrton, que conseguiu controlar seu carro mesmo sobre a pista molhada, com pneus lisos. Trocou de pneus quatro vezes: colocou pneus ‘biscoito’ quando possuía 22 segundos de vantagem sobre Prost e, logo trocou de volta para lisos. Depois, lá pela volta 55, trocou de novo para pneus de chuva, e logo depois para lisos, finalizando a corrida com esses pneus. Prost, o ‘Professor’ nada ousado, trocou nada menos do que sete vezes! Resultado: Senna ganhou com uma distância de 1min23s sobre Prost.

A McLaren MP4/8 de Senna, #8, está até hoje em exposição no circuito de Donington Park, junto com a bandeira que o piloto usou ao fim da prova.

Quem quiser ver (ou rever) a prova, aqui está o vídeo, na íntegra:

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É importante lembrar do tão combalido Rubens Barrichello. Ele, que, acabou de assinar para correr na Fórmula Indy nessa temporada. Pois bem: o que Barrichello fez nessa corrida foi digno do feito de Senna e Bellof em 1984: Largou na 12ª colocação, à bordo de um humilde Jordan, equipado com motor Hart (da mesma casa do motor de Senna em 1984) 3.5 V6. Após duas voltas, já estava em quarto. Na volta de número 51, Barrichello ficou em segundo, após o carro de Prost ‘morrer’ nos boxes. Depois, foi ultrapassado e ficou em terceiro por quatro voltas. Na volta 56, seu carro parou devido a um problema do carro, com a bomba de combustível. Nada a ver com sua pilotagem.

 

Aliás, Barrichello possui duas vitórias em GPs da Europa, feito só igualado pelos campeões Fernando Alonso e Sebastian Vettel. Superado, só por Schumacher (que possui seis vitórias). O ano de 1993 foi extremamente proveitoso para Rubinho: terminou em terceiro no GP do Pacífico e largou na Pole no GP da Bélgica. É triste, porém, o que grande parte da mídia nacional e a imensa maioria dos torcedores de F1 do Brasil fizeram com o piloto, tratando-o como um piloto inferior ou lento. Teve de viver sob a sombra de um gênio, e nunca foi reconhecido pelo que é, um ótimo piloto (ainda que não tenha sido um gênio). Na Inglaterra, há uma base grande de fãs de Rubinho, e, aposto, o próprio Senna não concordaria com o tratamento que dão ao Barrichello por aqui. Para os que gostam do programa da BBC Top Gear, dois vídeos divertidos com a participação de RB:

 

 

 

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