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Por que as coisas não puderam ser assim?

Quadro do artista lituano Oleg Konin, cujo título é "If Only"

Emocionante, bem escrita, fiel. Assim eu definiria a matéria de capa da edição 20 da revista ALFA. Para quem é fã de Senna, para quem foi fã de Senna. E para os que não foram também, mas sabem de seu impacto no esporte, seu impacto no tal do “incosciente coletivo” (está certo, Dr. Jung?) do povo brasileiro.

O texto é assinado por um de seus grandes amigos – e que depois tornou-se desafeto – o jornalista Reginaldo Leme, da TV Globo. O filme de Asif Kapadia, a pintura do lituano Oleg Konin e o texto de Leme se complementam de maneira harmoniosa. O que o jornalista fez foi escrever um belo texto, sem ser piegas nem melodramático, sobre como seria a vida de Senna caso o fatídico acidente em Ímola não houvesse imolado o ídolo.

Você começa o texto com aquela pergunta proverbial na cabeça, perfeitamente ilustrada pelo quadro de Konin (e que ilustra esse post também): “E se?”

Ao longo de três páginas, Leme nos dá um vislumbre triste e ao mesmo tempo feliz daquilo que poderia ter sido. Não me entendam mal, é triste justamente porque a vida do Senna está muito bem, conforme esboçada pelo jornalista. E é tudo tão verossímil que é difícil você não acabar de ler o ensaio e fazer uma outra pergunta: “Porquê as coisas não foram assim?”

Relíquia

Em 1993, Ayrton Senna escreveu aquele que se tornaria uma espécie de manual, onde conta (uma parte) de suas estratégias de pilotagem dentro das pistas. O livro, intitulado Ayrton Senna’s Principles of Race Driving acabou sendo publicado por uma editora não muito grande, que, hoje em dia, nem tem mais os direitos sobre ele.

Resultado: Ele é avis rara no mundo inteiro, e poucos felizardos possuem esse livro. Na internet, em pdf, esquece. Non ecsiste.

E, o que era vendido a míseros U$36 dólares no ano de lançamento hoje em dia vale U$ 125 dólares nos EUA. No Reino Unido, custa cerca de £75, algo equivalente ao seu preço americano.

Tá bom o preço? Você pode comprar aqui ou aqui.

Os mitos automotivos da minha época

Quando eu era pequeno, já tinha adoração por carros, e sempre que ganhava carrinhos de “matchbox” (os Hot Wheels de hoje em dia), eu gostava, diferente de meus amigos, de saber que meus carrinhos eram modelos que existiam na vida real. Já sabia o que era bom nessa época, e minha paixão pela Lamborghini Countach, pela BMW M5 e pela Ferrari Testarossa nasceu em inocentes brincadeiras de bate-bate entre carrinhos de matchbox (às vezes eles eram esmagados por um martelo de cozinha também, é verdade).

Porém, os primeiros carros reais, daqueles que eu via na rua, que causaram uma impressão em mim foram o Escort XR3 e o Gol GTi. E digo mais: ainda que o GTi fosse mais potente e mais veloz (era o carro mais rápido do brasil, com motor 2.0 de Santana ‘o único com injeção eletrônica’), sempre preferi o visual do XR3.

Para matar as saudades, coloco aqui duas propagandas de época, uma do Escort e outra do Gol. Em uma delas, há até um personagem familiar…

A genialidade de Senna e o talento de Barrichello (post longo)

O circuito de Donington Park

Mais um capítulo sobre as incríveis façanhas de Ayrton Senna. Para os que viram e vibraram, vale a lembrança. Para os que eram muito pequenos ou nem nascidos, vale o conhecimento sobre o que ocorreu naquela tarde chuvosa de 11 de abril.

 

Lembro que vi partes dessa corrida com meu pai (tinha 12 anos), e ele, sempre pessimista com esportes, afirmou, quando começou a chover mais pesado, que o Senna venceria na certa.

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O que Senna fez nesse dia demonstra, mais do que sua habilidade, sua visão tática de uma corrida, sua genialidade em pensar em todos os aspectos e variáveis de uma corrida. Em outras palavras, o aperfeiçoamento de suas vitórias. Pouco mais de um ano depois, ele não teria mais tempo de aperfeiçoar aquilo que parecia já perfeito, mas que, aos olhos do próprio Senna, seriam sempre uma obra inacabada: sua pilotagem.

 

Grande Prêmio da Europa, 1993. Circuito de Donington Park, localizado no condado de Leicester, Inglaterra. Senna não possuía um ótimo carro. Pela primeira vez em sua carreira junto à scuderia McLaren, seu carro era, digamos, bom.

 

Diferente dos ótimos McLaren-Honda que guiou nas temporadas anteriores, ele guiava um carro com motor McLaren-Ford; o HBD7 era de 3900 cc (3.9 litros), mas com oito cilindros (V8). Diferente (para não dizer muito inferior) do MP4/6, com motor Honda RA-121E, 3.5 litros V12, com o qual Senna foi tricampeão do mundo, e, na minha opinião, o melhor carro de Fórmula 1 já feito. A verdade é que a McLaren já não tinha mais tanto dinheiro para bancar o contrato com a Honda e a solução foi, após o final da temporada de 1992, firmar um acordo – quase que de última hora – com a Ford.

 

Bem, voltando às pistas: Senna largou, naquele dia, na quarta colocação, atrás de Schumacher (3º), Hill (2º) e Prost (1º). Tinha, portanto, à sua frente, três pilotos que ou seriam ou haviam sido campeões do mundo, dois em Williams e um em uma Bennetton. Dá-se a largada, e Schumacher bloqueou a primeira tentativa de ultrapassagem de Senna, no instante seguinte ao farol verde. O austríaco Karl Wendlinger, da Sauber, que vinha atrás, na 5ª posição, ultrapassou os dois pilotos e ganhou, instantaneamente, o terceiro lugar, já no comecinho da corrida, na abertura da Red Gate, a primeira das dez curvas do traçado. De repente, Senna começa – de verdade – o Grande Prêmio: Poucos segundos após o início da corrida, já na entrada da terceira curva, Senna ultrapassa com facilidade a Bennetton de Schumi. Antes do final das Craner Curves e no início da quarta curva, Senna ultrapassa Wendlinger, e vai com tudo o que o propulsor Ford agüenta em direção a Hill. Na sétima curva, Ayrton já havia passado o inglês que corria com o número 0, e pisou fundo para alcançar Prost. No começo da décima e última curva, o “cotovelo” (hairpin) Melbourne, o francês já havia sido deixado para trás, e Senna começou a segunda volta já na liderança.

 

Ele seguraria essa posição por outras 75 voltas. Sim, houveram momentos – um ou dois se não me engano – em que Ayrton perdeu a liderança temporariamente devido à troca de pneus. Uma coisa ajudou Senna: começou a chover forte. No começo da prova, o asfalto já estava molhado, é verdade. Mas a água começou a despencar para valer bem depois de Senna já estar em primeiro. Todo mundo achava que o tempo ia abrir, então a maioria dos pilotos começou a prova com pneus slick. Inclusive Ayrton. Porém, o que ele fez foi – assim como fazia com os motores – aproveitar o máximo do pneu seco, indo trocar ele pela primeira vez no momento em que seus oponentes mais próximos já estavam na segunda ou terceira troca (caso de Prost). Com isso, conseguiu abrir uma vantagem grande, e, nas últimas voltas, tinha colocado uma volta, uma volta e meia de vantagem do 3º e 4º colocado. Sua vantagem sob Prost era de um minuto.

 

As leis da física (e do automobilismo) mandam o piloto usar pneus adequados com as condições da pista: secos (seca) e de chuva (ou ‘biscoito’ como era chamado antigamente) quando a pista está molhada ou quando há grande chance de precipitação. Porém, elas não se aplicavam a Ayrton, que conseguiu controlar seu carro mesmo sobre a pista molhada, com pneus lisos. Trocou de pneus quatro vezes: colocou pneus ‘biscoito’ quando possuía 22 segundos de vantagem sobre Prost e, logo trocou de volta para lisos. Depois, lá pela volta 55, trocou de novo para pneus de chuva, e logo depois para lisos, finalizando a corrida com esses pneus. Prost, o ‘Professor’ nada ousado, trocou nada menos do que sete vezes! Resultado: Senna ganhou com uma distância de 1min23s sobre Prost.

A McLaren MP4/8 de Senna, #8, está até hoje em exposição no circuito de Donington Park, junto com a bandeira que o piloto usou ao fim da prova.

Quem quiser ver (ou rever) a prova, aqui está o vídeo, na íntegra:

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É importante lembrar do tão combalido Rubens Barrichello. Ele, que, acabou de assinar para correr na Fórmula Indy nessa temporada. Pois bem: o que Barrichello fez nessa corrida foi digno do feito de Senna e Bellof em 1984: Largou na 12ª colocação, à bordo de um humilde Jordan, equipado com motor Hart (da mesma casa do motor de Senna em 1984) 3.5 V6. Após duas voltas, já estava em quarto. Na volta de número 51, Barrichello ficou em segundo, após o carro de Prost ‘morrer’ nos boxes. Depois, foi ultrapassado e ficou em terceiro por quatro voltas. Na volta 56, seu carro parou devido a um problema do carro, com a bomba de combustível. Nada a ver com sua pilotagem.

 

Aliás, Barrichello possui duas vitórias em GPs da Europa, feito só igualado pelos campeões Fernando Alonso e Sebastian Vettel. Superado, só por Schumacher (que possui seis vitórias). O ano de 1993 foi extremamente proveitoso para Rubinho: terminou em terceiro no GP do Pacífico e largou na Pole no GP da Bélgica. É triste, porém, o que grande parte da mídia nacional e a imensa maioria dos torcedores de F1 do Brasil fizeram com o piloto, tratando-o como um piloto inferior ou lento. Teve de viver sob a sombra de um gênio, e nunca foi reconhecido pelo que é, um ótimo piloto (ainda que não tenha sido um gênio). Na Inglaterra, há uma base grande de fãs de Rubinho, e, aposto, o próprio Senna não concordaria com o tratamento que dão ao Barrichello por aqui. Para os que gostam do programa da BBC Top Gear, dois vídeos divertidos com a participação de RB:

 

 

 

Links Automaníacos

A Enciclopédia do Automobilismo Brasileiro – Belo trabalho organizado por Carlos de Paula

A Morte de Senna – Reportagem emocionante, comovente e em alguns momentos chocante sobre a morte do nosso maior ídolo do automobilismo, pelo jornalista Lívio Oricchio (40 páginas).

Senna e o Alemão (não, não era o Schumacher)

Monaco, julho de 1984. Ayrton Senna dirigia um carro de Fórmula 1 definitivamente inferior aos das grandes escuderias. Era o famigerado Toleman TG184, com motor Hart 415T, 1.5. Foi com esse carro que Senna saiu em 13º e acabou a prova em 2º lugar, feito bem retratado no filme recente de Asif Kapadia, Senna. Nas últimas voltas, Senna chegou a estar a 4,5 segundos atrás do primeiro colocado, o piloto que ganharia a prova, Alain Prost.

Contudo, por mais magnífico que Senna fosse – e ele certamente foi – um outro jovem talento despontava naquela prova: o alemão Stefan Bellof.

Dois anos e meio mais velho do que Senna, com 26 anos, Bellof, assim como o brasileiro, fazia sua estreia na Fórmula 1 naquela temporada, por outra equipe inglesa, a Tyrrell. E, naquela tarde chuvosa em Monte Carlo, embora chegasse em terceiro lugar, atrás de Senna e Prost, seu feito não foi menor do que o de nenhum dos dois. Saiu em 20º, e, com o carro da Tyrrell equipado com motor Ford Cosworth 2.9, chegou em terceiro. Está certo que há uma controvérsia toda em torno do Tyrrell 012, um carro cheio de irregularidades, o que custou à equipe um banimento da temporada de 1985 imposto pela FISA. Porém, não deixa de ser algo louvável, numa pista traiçoeira, molhada, cheia de grandes nomes do automobilismo da época, como Prost, Lauda, Mansell, Picquet, ganhar 17 posições. E mais: as estatísticas diziam que, no exato momento em que Senna estava a 4,5 segundos de Prost, pouco antes dos juizes decidirem terminar a prova, Bellof, mantida a corrida e seu ritmo, (e todas as variáveis continuassem iguais, tanto da parte de Senna quanto de Prost), chegaria em Prost em 4 segundos, pois ia mais rápido que Senna. Isso foi dito na transmissão do evento, à época. Muitos anos depois, soube-se que Senna estava com a suspensão nas últimas, quando a corrida terminou, à 31 voltas, e, com isso, Bellof – continuada a corrida – deveria ultrapassar tanto Senna quanto Prost.


Bellof é  o grande ídolo e a inspiração  de Michael Schumacher. Até hoje, mantém o recorde de tempo, como a volta mais rápida no anel norte (Nordschleife) do lendário autódromo Nürburgring: percorreu os quase 21 km em 6min11s, à bordo de um Porsche 956.

Assim como Senna, morreu num acidente em pista, um ano depois do GP de Monaco, aos 27 anos, quando corria as Mil Milhas de Spa-Francorchamps, a bordo do mesmo Porsche 956 com o qual quebrou o recorde da mais famosa pista do automobilismo europeu.

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