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Entrevista com Terry Fullerton

Fullerton (Esq.) e Senna (Dir.) conversam após disputa nos karts

Terry Fullerton foi um piloto de kart profissional na década de 1970 na Inglaterra. Os holofotes estão sobre ele, no momento, após a menção feita a seu nome, na cena final do documentário ‘Senna’, que acaba de ganhar o Bafta Awards (o Globo de Ouro inglês), como melhor documentário. Na cena, Ayrton cita Fullerton como o melhor oponente que ele teve em sua carreira. Fullerton correu com Senna em 1978, e esta entrevista abaixo, cedida para o crash.net  demonstra um piloto que compartilhava muitos dos ideais de determinação, obstinação e perseverança de Senna.

Terry Fullerton, Campeão Mundial de Kart, 28 de janeiro de 2012  

Por Simon Stiel

 Crash.net: Como está sendo a vida de celebridade instantânea após o lançamento do documentário sobre Senna?

Terry Fullerton: Eu já me acostumei, mas é um tanto chocante, para te falar a verdade. É um pouco estranho ser reconhecido por algo que você fez há mais de 30 anos. Na verdade, eu acho que nunca vai cair a minha ficha.

Crash.net: Como você se sentiu quando viu aquela  sequência do filme em que Senna menciona o seu nome na coletiva de imprensa em Adelaide (AUS), em 1993? 

Terry Fullerton: Eu fiquei sabendo, à época, que ele falara aquelas coisas sobre mim. Mas, para falar a verdade, achei que era um boato.  Aí eu vi ele falando, como se fosse ao vivo, durante o filme. E…é difícil explicar meus sentimentos, na verdade (emocionado). Mas eu fiquei muito feliz dele ter dito aquelas coisas. Aconteceu há muito tempo e é tudo muito estranho mas, basicamente, estou contente que ele falou tais coisas e contente que suas palavras tenham vindo a público.

Crash.net: Você enfrentou gente como Francois Goldstein (piloto belga, pentacampeão mundial de kart). Você acha que, psicologicamente, você teve que ir além em seus embates contra Senna?

Terry Fullerton: Na verdade, não. Goldstein era um piloto muito mais completo – à época – do que Senna. Goldstein era um piloto confiante, mais desenvolvido, mais experiente e quando eu ganhei o campeonato mundial (em 1973) foi como se eu tivesse que me desenvolver gradualmente, me elaborar pouco a pouco, para bater alguém que já era um piloto completo. Com Senna, eu era esse piloto mais experiente, mais desenvolvido e ele era um talento bruto, faltando ser ‘polido’, com apenas 17 anos (n. do e. Fullerton é 7 anos mais velho do que Senna). Era uma situação diferente, para não dizer contrária. Então a disputa com Goldstein era um desafio muito maior do que com Senna.

Crash.net: Então você diria que no caso de Senna, você era o perseguido?

Terry Fullerton: É, mas era algo que eu tinha sob controle. Ele definitivamente me ‘perseguia’ e eu era o oponente que ele queria bater.

Crash.net: Um pôster da época se referia a você e Senna como os “Reis do Kart”. Houve um momento em que vocês não se preocupavam com mais nada, mas com vencer um ao outro?

Terry Fullerton: Não, eu me preocupava com outras pessoas. Eu sempre tive uma filosofia de vitória muito estrita. Eu queria vencer e pouco me importava quem chegasse em segundo. Ele era uma das pessoas que eu não importava se chegasse atrás de mim. Eu só queria vencer, essa era a minha filosofia.

Crash.net: Parte dessa filosofia era uma abordagem meticulosa em relação aos treinos, não? Quando você desenvolveu essa técnica?

Terry Fullerton: Sim, sim. E isso foi algo que veio com os anos. Eu simplesmente fui acumulando conhecimento e experiência entre 1970 e 1980 e, naturalmente, essa técnica veio com o tempo.

Crash.net: Você acha que é ruim o fato de que, hoje em dia, pessoas com 14 anos de idade possam ter a oportunidade de dirigir (karts)?

Terry Fullerton: Se é bom ou ruim, isso é um fato da vida e eu só tenho de aceitar. Não perco o meu tempo comentando se é bom ou ruim para não parecer um velho rabugento (risos).

Crash.net: Se eu fosse seu pupilo, você se concentraria mais no lado mental ou nas técnicas envolvidas na pilotagem de um kart?

Terry Fullerton: Normalmente começa com o lado físico. Você precisa realmente estar em controle das técnicas e ir, passo a passo, melhorando. E, aí, o lado mental se torna importante, de modo que são ambas as coisas.

Crash.net: É um desafio convencer os pais de que seus filhos precisam de aconselhamento e treino?

Terry Fullerton: Olha, é quase impossível. Por alguma razão, no universo das corridas a motor, as pessoas acham que ou as pessoas nascem talentosas ou nunca terão sucesso nas pistas. Ou você *é* um campeão ou *não é*. E todos os pais, sem exceção, pensam que seus filhinhos queridinhos são campeões. Eles estão sempre achando que seus filhos não precisam de um técnico e que vão vencer por conta própria. Então é quase impossível convencê-los de que o meu trabalho, como conselheiro técnico, irá fazer de seus filhos pilotos vitoriosos ou ao menos ajudá-los a pilotar melhor.

Crash.net: Quando você se tornou uma pessoa auto-confiante? Quando você estava pilotando, você tinha o apoio de seu pai e de seu irmão. Como você desenvolveu a confiança para pensar por si próprio e tomar suas próprias decisões nas pistas?

Terry Fullerton: Eu acho que isso começou quando eu tinha 12 ou 13 anos. Eu me tornei muito bom em pilotar meu kart porque eu era muito obcecado e determinado em relação a meu sucesso. Eu comecei a vencer corridas, campeonatos, e aí minha confiança cresceu. E isso me dava segurança para tentar vôos cada vez mais altos, e à medida que eu vencia mais e mais provas e desafios iam surgindo e eu ia saía deles com a vitória, minha auto-confiança não só aumentava, mas se consolidava. Eu comecei a correr muito cedo (com seis anos) e praticamente nunca parei (Fullerton abandonou as pistas em 1984, com 31 anos). No final de minha carreira, eu ainda era muito confiante por causa de toda a minha progressão no kart, que me propiciou chegar aonde cheguei.

Crash.net: Outros pilotos vencem também, e seguem uma progressão, mas depois estagnam. Como você evitou isso?

Terry Fullerton: Eu simplesmente tinha essa paixão, esse desejo ardente de ser o melhor no que eu estava fazendo, à qualquer custo. O que quer que eu tivesse de fazer para ser o melhor, era o que sempre estive preparado para fazer. E isso era algo que Senna também tinha. Haviam outros caras, outros pilotos que possuíam um pouco desse espírito, mas, definitivamente eu e Senna incorporávamos esses ideais de vitória de maneira mais completa. Acho que Mike Wilson (n.do e.: piloto inglês hexacampeão mundial de kart. Aliás, outra ótima história sobre o kart. Senna considerava ele o melhor piloto de todos os tempos) também era assim. Nós não estávamos preparados para chegar em segundo ou para sermos os segundo melhores. Nada além da vitória importava para nenhum de nós três.

Crash.net: Você treinou uma série de pilotos magníficos incluindo Anthony Davidson, Dan Wheldon e Paul Di Resta. Qual deles você acha que tinha esse desejo, que compartilhava esse ideal de vocês?

Terry Fullerton: Eu acho que a maioria dos garotos que eu ajudo tem isso, em graus diferentes. Cada personalidade reage ao meu treinamento de maneira diferente, mas acredito que todos os rapazes que treinei acabaram possuindo essa característica de um jeito ou de outro. Uma determinada quantidade de auto-confiança e compreensão de como progredir, isolar as coisas nas quais você não é bom e trabalhar em cima delas. Assim, com as coisas nas quais você é bom, você deixa elas para lá, e se concentra 100% em melhorar aquelas nas quais você não é tão bom. À medida que você progride você desenvolve auto-confiança e vice-versa. Todos eles sabem disso e incorporam essa filosofia.

Tirado de: http://www.crash.net/formula+kart+stars/news/176288/1/terry_fullerton_karting_champion_-_qa.html, 28 de janeiro de 2012

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