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(O contrário de) Uma Obra-Prima
Saiu hoje de linha o Citroën Xsara Picasso no Brasil. Com quatro anos de atraso para a matriz, o carro já vai tarde. Ele vinha bem equipado; câmbio sequencial tiptronic, bancos de couro, computador de bordo, rodas de liga leve, motor 2.0. Ok, verdade. Mas a transmissão era uma das mais frágeis que eu já vi – e mais difíceis de serem arrumadas. Minha esposa teve um carro desses. A caixa de câmbio, lá pelas tantas, começou a dar defeito. Levei não em dois, nem três ou quatro, mas *CINCO* mecânicas especializadas em câmbios automáticos, e, embora na última vez o problema tenha sido solucionado por duas semanas, ninguém conseguiu consertar a caixa de câmbio para valer. E se é para equipar um carro, faça a coisa toda certa: dê a ele um conjunto mecânico bem feito também. Coisa que, hoje em dia, um ou outro carro sul-coreano começa a fazer. Mas que até pouco tempo atrás não faziam. Por isso é que nos Estados Unidos e na Inglaterra, os dois mercados mais maduros de automóveis, as pessoas ainda resistem a crer que Kia e Hyundai possuem carros confiáveis. Mas isso é papo para outro post.
Voltando ao Citroën Xsara “Picasso”:
Os carros franceses e os italianos têm a fama de serem muito bonitos e modernos, mas com uma mecânica que deixa a desejar. Pois nem isso o Xsara Picasso te dava. O carro é um horror. O Pierre e o Jean deviam estar com a cabeça cheia de vinho e avistaram uma cebola cortada na vertical e aí tiveram a brilhante ideia de desenhar um carro. Disseram que quanto os franceses resolveram chamar a minivan do Xsara de Picasso, podiam ouvir urros e gritos horripilantes vindos lá dos cantos do Chateau de Vauvenargues , onde Pablo Picasso está enterrado.
E quando furava o pneu, então? é mais fácil você encontrar uma chave minúscula dentro das suas tripas antes que a armadilha do Jigsaw destrua seu crânio do que conseguir ter acesso ao estepe de um Picasso. Ele vinha preso numa jaula do lado de fora do carro. Para abrir esse compartimento externo, você precisa de uma chave de roda, e o pneu nunca caía direto no chão; não, ele ficava numa posição semi-presa, quase impossível de levantar por um homem de cócoras, que é a posição que você precisaria estar para abrir o compartimento do estepe. E eu sei bem como é tudo isso, porque o pneu da minha esposa furou umas seis vezes. Numa delas, confesso, a culpa foi toda minha.
Depois desse carro, tive a plena certeza de que nunca mais pisaria num Citroën. Nem se me pagassem. Radicalismos nunca são bons, está certo; nem preconceitos. Mas a primeira impressão, se não é a que fica, é a que ajuda a formar sua ideia sobre alguma coisa. E a ideia que eu tenho dos carros da Citroën, convenhamos, não poderia ser muito boa.
Por fim: A primeira vez que dirigi o carro ele tinha entre 85 mil e 90 mil km. Minha esposa ficou com ele até uns 116 mil. Após os cem mil kilômetros rodados, o carro andava pela rua mais lisa de São Paulo (é difícil existir, eu sei) e parecia uma orquestra: tinha barulho vindo de tudo que é lado, e parecia que cada porca, cada parafuso, cada arruela estava solta. Além, é claro, da suspensão frouxa e barulhenta, do barulho do ar-condicionado e da luz do Air Bag que insistia em acender e bipar cada vez que entrávamos em alguma estrada e o carro passava dos 100 km/h.
O Xsara Picasso, porém, ainda está vivinho em alguns países do globo, a saber Espanha e Egito, que insistem em vender essa anacrônica minivan vestida de escultura de mau-gosto.
O último Picasso brasileiro foi vendido pelas autorizadas Citroën com um absurdo e descomunal preço de tabela de R$ 53.900. Um iPad paraguaio custa muito mais barato. E é tão confiável quanto.


