Arquivos da Categoria: Ayrton Senna

A Maioridade do Luto

Com o risco de me tornar repetitivo (vejam os outros posts sobre o ídolo) deixo aqui três vídeos sobre a vida e a morte de Ayrton Senna. A fatalidade completa hoje 18 anos. Os três filmes homenageiam o piloto e dão dimensão da genalidade do homem.

Um é uma homenagem ao Senna feita pelo imperdível programa de TV inglesa, Top Gear ( sem legendas pois a versão legendada não está completa). Outro é um Globo Repórter especial do Senna, e o terceiro, é um programa brasileiro que se chama “A tragédia de 1º de maio”, que, confesso, desconheço a origem.

Por que as coisas não puderam ser assim?

Quadro do artista lituano Oleg Konin, cujo título é "If Only"

Emocionante, bem escrita, fiel. Assim eu definiria a matéria de capa da edição 20 da revista ALFA. Para quem é fã de Senna, para quem foi fã de Senna. E para os que não foram também, mas sabem de seu impacto no esporte, seu impacto no tal do “incosciente coletivo” (está certo, Dr. Jung?) do povo brasileiro.

O texto é assinado por um de seus grandes amigos – e que depois tornou-se desafeto – o jornalista Reginaldo Leme, da TV Globo. O filme de Asif Kapadia, a pintura do lituano Oleg Konin e o texto de Leme se complementam de maneira harmoniosa. O que o jornalista fez foi escrever um belo texto, sem ser piegas nem melodramático, sobre como seria a vida de Senna caso o fatídico acidente em Ímola não houvesse imolado o ídolo.

Você começa o texto com aquela pergunta proverbial na cabeça, perfeitamente ilustrada pelo quadro de Konin (e que ilustra esse post também): “E se?”

Ao longo de três páginas, Leme nos dá um vislumbre triste e ao mesmo tempo feliz daquilo que poderia ter sido. Não me entendam mal, é triste justamente porque a vida do Senna está muito bem, conforme esboçada pelo jornalista. E é tudo tão verossímil que é difícil você não acabar de ler o ensaio e fazer uma outra pergunta: “Porquê as coisas não foram assim?”

Disputado e imprevisível

Após três etapas, o campeonato de Fórmula 1 desse ano ainda não deu dicas sobre quem deve levar o caneco no fim do ano. Após os treinos preparatórios para o GP da Austrália eu mesmo imaginei – e torci, sendo McLarenista – uma hegemonia do time inglês.

Mas não. Jenson Button, que conta com minha torcida, foi quem ganhou *aquele* GP; o próximo foi vencido por Sérgio Perez Fernando Alonso. O terceiro, surpreendentemente pelo alemão-finlandês Nico “Kekeson” Rosberg.

Quem vencerá o quarto Grande Prêmio (no atribulado Bahrein)? Será que a Red Bull vai acordar?? O sucesso deles era somente por conta do ___________ (insira o nome do componente tecnológico de sua preferência)??? Sebastian Vettel vai reagir e mostrar que está realmente no time dos super-pilotos, junto com Schumacher, Senna e outros antes deles???? Não sei a resposta para essas perguntas, e duvido que muita gente por aí saiba com convicção.

É, torcida brasileira; A Fórmula 1 não é mais aquele poço de rivalidade, egos inflados, super talentos que garantia os espetáculos dos domingos dos anos oitenta. Isso todo mundo está careca de saber. Mas que esse é o começo de campeonato mais disputado dos últimos anos, isso é.

Relíquia

Em 1993, Ayrton Senna escreveu aquele que se tornaria uma espécie de manual, onde conta (uma parte) de suas estratégias de pilotagem dentro das pistas. O livro, intitulado Ayrton Senna’s Principles of Race Driving acabou sendo publicado por uma editora não muito grande, que, hoje em dia, nem tem mais os direitos sobre ele.

Resultado: Ele é avis rara no mundo inteiro, e poucos felizardos possuem esse livro. Na internet, em pdf, esquece. Non ecsiste.

E, o que era vendido a míseros U$36 dólares no ano de lançamento hoje em dia vale U$ 125 dólares nos EUA. No Reino Unido, custa cerca de £75, algo equivalente ao seu preço americano.

Tá bom o preço? Você pode comprar aqui ou aqui.

O Acidente de Juan Pablo Montoya e uma história contada por seu pai

Juan Pablo Montoya quase morreu hoje. Por sorte, nada aconteceu ao piloto colombiano, que já estrelou as pistas da Fórmula 1 e da Indy, e agora explode carros corre na Nascar. Seu carro, porém, virou uma bola de fogo, após o piloto rodar na pista e bater contra o caminhão que secava a pista em Daytona.

Se ainda não viu o vídeo, aqui está:

 

Fora de brincadeira, claro, Montoya é um piloto super habilidoso. Esse texto a seguir, pouco conhecido, conta um pouco de seu pai, Pablo Montoya, que foi um grande piloto de kart na Colômbia. Pois Montoya pai  conhecia Senna da época do kart. E gostava de contar uma história sobre quem o piloto brasileiro achava que era o melhor piloto de todos os tempos.  É um relato interessante, mas desta vez vai em inglês mesmo:

 

Call Him the Best Driver in the World

Six-time world champion Mike Wilson says karting is key to being competitive

A Gordon Kirby Column

Juan Montoya’s father Pablo Likes to tell a story about Ayrton Senna mystifying a TV interviewer who asked Senna who he thought was the best driver in the world.

“Mike Wilson,” Senna answered.

“The TV guy didn’t know what to say,” says the senior Montoya. “He stood there, lost for words. ‘Who’s Mike Wilson,’ he asked. And Senna said, ‘The best kart racer I ever saw.’”

Wilson won the World Kart Championship a record six times between 1981 and 1989 and Senna raced against him in karts, losing to Wilson many more times than he beat him. An Englishman who moved to Italy to pursue a professional kart racing career when he was 18, Wilson has lived there ever since. After retiring from driving at the end of 1989, Wilson started his own kart company, Rakama, located in Zingonia in Bergamo, about 30 miles from Milan. Today, Rakama manufactures around 700 karts each year.

Pablo Montoya raced karts but not until he was almost 30 years old. For an old guy, Pablo was pretty good, and he credits Wilson with teaching him some real secrets about racing. “The guy I learned the most from was Mike Wilson,” Pablo says. “I asked him to teach me. First of all he wouldn’t, but I said, ‘Hey Mike, I’m old. I’m never going to beat you.’ So slowly, we began.”

Montoya says the first thing Wilson taught him was the importance of the opening lap, a lesson that Montoya was able to teach very successfully to his son Juan. “The most important and the first thing he taught me was to go flat-out on the first lap on cold tires when everyone is a little worried and a little tentative,” Pablo says. “Go flat-out, get to the front, and break their spirit. That was his first lesson.

“I said, ‘That’s crazy because I’ll crash trying to do it.’ He said, ‘That’s right, but you have to learn not to crash.’ So slowly I learned, and this is something that Juan has learned very well.

“The next thing I learned from Mike was to drive with your eyes and your shoulders. Don’t drive with your arms. Use your arms and let them follow your eyes. These are some of the things I tried to teach Juan Pablo, and I have to thank Mike Wilson for it.”

Before moving to Italy to drive for the factory Ayami team, Wilson won the British junior kart title driving for Brit karting champion and guru Martin Hines. Hines builds Zip karts and is currently developing a new entry-level, low-cost Ford-powered formula car.

“Ayrton Senna, Mike Wilson and Terry Fullerton were three of the greats in karts,” Hines says. “Francois Goldstein also has to rate as high as them. I’m not saying there haven’t been some greats since then, but I think those are the guys that really stand out in my mind.”

Wilson retired from racing karts when he was 30 years old at the end of the 1989 season, after winning his sixth world championship. Wilson decided to go into the kart manufacturing business and has been very successful. Most years he also runs his own kart team, although he hasn’t done so this year.

Wilson never raced a car. He tested a Formula 3 car a few times but couldn’t find the sponsorship to pay for a season of racing. “In the tests I did I always went well, extremely well, I should say, without bragging,” Wilson says. “But the problem was the first year in Formula 3, you have to bring sponsors, or have money to pay for a full year. Then if you have a good year, possibly you’ve got a chance.

“But for me, at that particular time, I was a professional kart driver. I was married when I was 23 and we had a child. I had to look after my family and I didn’t have the money or any sponsorship, unfortunately, to move on into car racing. If you’re a talented driver and get some good results after a couple of years of racing, you’ll be able to make a good living out of it, but it’s very difficult just to step in there.”

Wilson won the karting world championship in 1981, ’82, ’83, ’85, ’88 and ’89, and had plenty of memorable battles with Senna. “We had a lot of fights together on the track, and a few arguments after races as well,” Wilson admits. “He beat me in maybe two or three races, but in the world championship I always managed to arrive before he did.

“As he was in Formula 1, Senna was a very tough driver,” Wilson recalls. “He was very aggressive, difficult to overtake. We got to the stage where Terry Fullerton was there, I was there, and Ayrton was there as well. If we raced together in oh, maybe 15 races, I would say I beat him 13 times and he beat me twice.”

Wilson says he has no regrets after Senna went on to enjoy an illustrious career. Wilson and Senna remained friends and after Wilson won his sixth world title in 1989, Senna telephoned Italy’s daily sports newspaper La Gazzetta Dello Sport to ask motorsports guru Pino Alievi why they hadn’t given Wilson’s achievement more space.

“Senna telephoned Pino Alievi and said, ‘It’s very strange that the Italian journalists who love motorsport don’t give credit to a boy who wins the World Championship for a sixth time,’ So Pino called me and asked if I would go down for an interview, and the day after they put half a page in the paper with my photograph, and Pino asked me if I was envious of the fact that Senna was the World Champion in Formula 1 and I was still in karting.

“I said I wasn’t envious of Senna, and I’m not envious today of Michael Schumacher of Alessandro Zanardi, who’s a pretty good friend of mine, or some of the other Formula 1 drivers and boys who are going over to race Champ Cars as well. These are talented drivers.

“I’m more envious of the fact that maybe there are a lot of people who get into Formula 1, and I’m not just speaking for myself, but there are a lot of talented drivers knocking around in karting that will never, unfortunately, have a chance to drive in a formula car, let alone a Formula 1.

“And that’s what I said to Pino, ‘No, I’m not envious of Senna at all.’ I think he deserved to be where he was because he was the best driver that I knew through my karting career. And other guys like Alain Prost and Nigel Mansell. These top guys deserve to be there.

“I’ve got no regrets because I had an excellent career in karting. The only thing is it was a dream for me when I was younger to become a car driver, but when you get older and you see the difficulties and you live them yourself, you see it’s not as easy as you thought it would have been. I realized it wasn’t possible for me to do it, so I said, well, OK, I’ll continue doing karting, which was still giving me good results and a good living.”

Wilson says Senna always held karting in high regard and kept himself sharp in the off-season by driving karts. “I remember speaking to Senna the year before he had the accident in Imola, and he said he always did a lot of testing in karts in the winter when he was back in Brazil,” Wilson says. “He always said that an international kart was the closest thing to a Formula 1 car that he had ever driven.

“I think people have recognized that karting is necessary if you want to be competitive, or a fast driver in formula racing. Look at Jenson Button. He was racing karts two years ago and he’s competitive in Formula 1. He can go to a track he’s never been to and after three laps he knows the line and that’s because he’s learned that in karting.

“I guarantee you that if you put a 17- or 18-year-old boy who’s raced karts for 10 years into a Formula Ford alongside another boy who’s had only a year’s experience in cars, that the boy who’s coming in from karting will be quicker. A boy with karting experience will also be able to stop after 10 laps and tell you where they have difficulties.

“They’ll be able to tell you they’ve got a little oversteer in these corners, but they’ve got understeer in these corners, so can we get a little more grip on the front? They can give feedback immediately after only a few laps in something they’ve never driven before.”

Nineteen-year-old Spaniard Fernando Alonzo drove karts for Wilson last year. Alonzo also won last year’s Formula Nissan championship in Spain and showed his ability by winning this year’s final FIA Formula 3000 race at Spa at the end of August. Alonzo tested for the Minardi F1 team at the end of last year and may drive for the Italian team in F1 next year.

“He’s a very, very talented driver,” Wilson notes. “It’s nice to have drivers like this boy Alonzo. He’s got a Formula 1 drive for next year so I’m really pleased for him.”

Wilson hasn’t run a kart team this year because he’s been busy developing a kart for the less-serious Sunday racer that isn’t as difficult to set up. “I’ve tried to improve the looks of the kart and the performance for the normal, standard Sunday racers, not only international racers. People need a kart that works well without having to be a World Champion to set the kart up, and this is what my aim has been this year. So far, I’m extremely pleased because we’ve been winning a lot of races around the world.

“I get the same enthusiasm, the same kick out of it when one of my drivers wins a race like I used to when I was racing,” Wilson says. “It gives me exactly the same feeling inside. It’s more or less my life. You’re still in contact with young people and I think if you stay with young people a lot of the time, you feel younger. I still really enjoy it.”

Courtesy of  www.cart.com

Entrevista com Terry Fullerton

Fullerton (Esq.) e Senna (Dir.) conversam após disputa nos karts

Terry Fullerton foi um piloto de kart profissional na década de 1970 na Inglaterra. Os holofotes estão sobre ele, no momento, após a menção feita a seu nome, na cena final do documentário ‘Senna’, que acaba de ganhar o Bafta Awards (o Globo de Ouro inglês), como melhor documentário. Na cena, Ayrton cita Fullerton como o melhor oponente que ele teve em sua carreira. Fullerton correu com Senna em 1978, e esta entrevista abaixo, cedida para o crash.net  demonstra um piloto que compartilhava muitos dos ideais de determinação, obstinação e perseverança de Senna.

Terry Fullerton, Campeão Mundial de Kart, 28 de janeiro de 2012  

Por Simon Stiel

 Crash.net: Como está sendo a vida de celebridade instantânea após o lançamento do documentário sobre Senna?

Terry Fullerton: Eu já me acostumei, mas é um tanto chocante, para te falar a verdade. É um pouco estranho ser reconhecido por algo que você fez há mais de 30 anos. Na verdade, eu acho que nunca vai cair a minha ficha.

Crash.net: Como você se sentiu quando viu aquela  sequência do filme em que Senna menciona o seu nome na coletiva de imprensa em Adelaide (AUS), em 1993? 

Terry Fullerton: Eu fiquei sabendo, à época, que ele falara aquelas coisas sobre mim. Mas, para falar a verdade, achei que era um boato.  Aí eu vi ele falando, como se fosse ao vivo, durante o filme. E…é difícil explicar meus sentimentos, na verdade (emocionado). Mas eu fiquei muito feliz dele ter dito aquelas coisas. Aconteceu há muito tempo e é tudo muito estranho mas, basicamente, estou contente que ele falou tais coisas e contente que suas palavras tenham vindo a público.

Crash.net: Você enfrentou gente como Francois Goldstein (piloto belga, pentacampeão mundial de kart). Você acha que, psicologicamente, você teve que ir além em seus embates contra Senna?

Terry Fullerton: Na verdade, não. Goldstein era um piloto muito mais completo – à época – do que Senna. Goldstein era um piloto confiante, mais desenvolvido, mais experiente e quando eu ganhei o campeonato mundial (em 1973) foi como se eu tivesse que me desenvolver gradualmente, me elaborar pouco a pouco, para bater alguém que já era um piloto completo. Com Senna, eu era esse piloto mais experiente, mais desenvolvido e ele era um talento bruto, faltando ser ‘polido’, com apenas 17 anos (n. do e. Fullerton é 7 anos mais velho do que Senna). Era uma situação diferente, para não dizer contrária. Então a disputa com Goldstein era um desafio muito maior do que com Senna.

Crash.net: Então você diria que no caso de Senna, você era o perseguido?

Terry Fullerton: É, mas era algo que eu tinha sob controle. Ele definitivamente me ‘perseguia’ e eu era o oponente que ele queria bater.

Crash.net: Um pôster da época se referia a você e Senna como os “Reis do Kart”. Houve um momento em que vocês não se preocupavam com mais nada, mas com vencer um ao outro?

Terry Fullerton: Não, eu me preocupava com outras pessoas. Eu sempre tive uma filosofia de vitória muito estrita. Eu queria vencer e pouco me importava quem chegasse em segundo. Ele era uma das pessoas que eu não importava se chegasse atrás de mim. Eu só queria vencer, essa era a minha filosofia.

Crash.net: Parte dessa filosofia era uma abordagem meticulosa em relação aos treinos, não? Quando você desenvolveu essa técnica?

Terry Fullerton: Sim, sim. E isso foi algo que veio com os anos. Eu simplesmente fui acumulando conhecimento e experiência entre 1970 e 1980 e, naturalmente, essa técnica veio com o tempo.

Crash.net: Você acha que é ruim o fato de que, hoje em dia, pessoas com 14 anos de idade possam ter a oportunidade de dirigir (karts)?

Terry Fullerton: Se é bom ou ruim, isso é um fato da vida e eu só tenho de aceitar. Não perco o meu tempo comentando se é bom ou ruim para não parecer um velho rabugento (risos).

Crash.net: Se eu fosse seu pupilo, você se concentraria mais no lado mental ou nas técnicas envolvidas na pilotagem de um kart?

Terry Fullerton: Normalmente começa com o lado físico. Você precisa realmente estar em controle das técnicas e ir, passo a passo, melhorando. E, aí, o lado mental se torna importante, de modo que são ambas as coisas.

Crash.net: É um desafio convencer os pais de que seus filhos precisam de aconselhamento e treino?

Terry Fullerton: Olha, é quase impossível. Por alguma razão, no universo das corridas a motor, as pessoas acham que ou as pessoas nascem talentosas ou nunca terão sucesso nas pistas. Ou você *é* um campeão ou *não é*. E todos os pais, sem exceção, pensam que seus filhinhos queridinhos são campeões. Eles estão sempre achando que seus filhos não precisam de um técnico e que vão vencer por conta própria. Então é quase impossível convencê-los de que o meu trabalho, como conselheiro técnico, irá fazer de seus filhos pilotos vitoriosos ou ao menos ajudá-los a pilotar melhor.

Crash.net: Quando você se tornou uma pessoa auto-confiante? Quando você estava pilotando, você tinha o apoio de seu pai e de seu irmão. Como você desenvolveu a confiança para pensar por si próprio e tomar suas próprias decisões nas pistas?

Terry Fullerton: Eu acho que isso começou quando eu tinha 12 ou 13 anos. Eu me tornei muito bom em pilotar meu kart porque eu era muito obcecado e determinado em relação a meu sucesso. Eu comecei a vencer corridas, campeonatos, e aí minha confiança cresceu. E isso me dava segurança para tentar vôos cada vez mais altos, e à medida que eu vencia mais e mais provas e desafios iam surgindo e eu ia saía deles com a vitória, minha auto-confiança não só aumentava, mas se consolidava. Eu comecei a correr muito cedo (com seis anos) e praticamente nunca parei (Fullerton abandonou as pistas em 1984, com 31 anos). No final de minha carreira, eu ainda era muito confiante por causa de toda a minha progressão no kart, que me propiciou chegar aonde cheguei.

Crash.net: Outros pilotos vencem também, e seguem uma progressão, mas depois estagnam. Como você evitou isso?

Terry Fullerton: Eu simplesmente tinha essa paixão, esse desejo ardente de ser o melhor no que eu estava fazendo, à qualquer custo. O que quer que eu tivesse de fazer para ser o melhor, era o que sempre estive preparado para fazer. E isso era algo que Senna também tinha. Haviam outros caras, outros pilotos que possuíam um pouco desse espírito, mas, definitivamente eu e Senna incorporávamos esses ideais de vitória de maneira mais completa. Acho que Mike Wilson (n.do e.: piloto inglês hexacampeão mundial de kart. Aliás, outra ótima história sobre o kart. Senna considerava ele o melhor piloto de todos os tempos) também era assim. Nós não estávamos preparados para chegar em segundo ou para sermos os segundo melhores. Nada além da vitória importava para nenhum de nós três.

Crash.net: Você treinou uma série de pilotos magníficos incluindo Anthony Davidson, Dan Wheldon e Paul Di Resta. Qual deles você acha que tinha esse desejo, que compartilhava esse ideal de vocês?

Terry Fullerton: Eu acho que a maioria dos garotos que eu ajudo tem isso, em graus diferentes. Cada personalidade reage ao meu treinamento de maneira diferente, mas acredito que todos os rapazes que treinei acabaram possuindo essa característica de um jeito ou de outro. Uma determinada quantidade de auto-confiança e compreensão de como progredir, isolar as coisas nas quais você não é bom e trabalhar em cima delas. Assim, com as coisas nas quais você é bom, você deixa elas para lá, e se concentra 100% em melhorar aquelas nas quais você não é tão bom. À medida que você progride você desenvolve auto-confiança e vice-versa. Todos eles sabem disso e incorporam essa filosofia.

Tirado de: http://www.crash.net/formula+kart+stars/news/176288/1/terry_fullerton_karting_champion_-_qa.html, 28 de janeiro de 2012

A genialidade de Senna e o talento de Barrichello (post longo)

O circuito de Donington Park

Mais um capítulo sobre as incríveis façanhas de Ayrton Senna. Para os que viram e vibraram, vale a lembrança. Para os que eram muito pequenos ou nem nascidos, vale o conhecimento sobre o que ocorreu naquela tarde chuvosa de 11 de abril.

 

Lembro que vi partes dessa corrida com meu pai (tinha 12 anos), e ele, sempre pessimista com esportes, afirmou, quando começou a chover mais pesado, que o Senna venceria na certa.

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O que Senna fez nesse dia demonstra, mais do que sua habilidade, sua visão tática de uma corrida, sua genialidade em pensar em todos os aspectos e variáveis de uma corrida. Em outras palavras, o aperfeiçoamento de suas vitórias. Pouco mais de um ano depois, ele não teria mais tempo de aperfeiçoar aquilo que parecia já perfeito, mas que, aos olhos do próprio Senna, seriam sempre uma obra inacabada: sua pilotagem.

 

Grande Prêmio da Europa, 1993. Circuito de Donington Park, localizado no condado de Leicester, Inglaterra. Senna não possuía um ótimo carro. Pela primeira vez em sua carreira junto à scuderia McLaren, seu carro era, digamos, bom.

 

Diferente dos ótimos McLaren-Honda que guiou nas temporadas anteriores, ele guiava um carro com motor McLaren-Ford; o HBD7 era de 3900 cc (3.9 litros), mas com oito cilindros (V8). Diferente (para não dizer muito inferior) do MP4/6, com motor Honda RA-121E, 3.5 litros V12, com o qual Senna foi tricampeão do mundo, e, na minha opinião, o melhor carro de Fórmula 1 já feito. A verdade é que a McLaren já não tinha mais tanto dinheiro para bancar o contrato com a Honda e a solução foi, após o final da temporada de 1992, firmar um acordo – quase que de última hora – com a Ford.

 

Bem, voltando às pistas: Senna largou, naquele dia, na quarta colocação, atrás de Schumacher (3º), Hill (2º) e Prost (1º). Tinha, portanto, à sua frente, três pilotos que ou seriam ou haviam sido campeões do mundo, dois em Williams e um em uma Bennetton. Dá-se a largada, e Schumacher bloqueou a primeira tentativa de ultrapassagem de Senna, no instante seguinte ao farol verde. O austríaco Karl Wendlinger, da Sauber, que vinha atrás, na 5ª posição, ultrapassou os dois pilotos e ganhou, instantaneamente, o terceiro lugar, já no comecinho da corrida, na abertura da Red Gate, a primeira das dez curvas do traçado. De repente, Senna começa – de verdade – o Grande Prêmio: Poucos segundos após o início da corrida, já na entrada da terceira curva, Senna ultrapassa com facilidade a Bennetton de Schumi. Antes do final das Craner Curves e no início da quarta curva, Senna ultrapassa Wendlinger, e vai com tudo o que o propulsor Ford agüenta em direção a Hill. Na sétima curva, Ayrton já havia passado o inglês que corria com o número 0, e pisou fundo para alcançar Prost. No começo da décima e última curva, o “cotovelo” (hairpin) Melbourne, o francês já havia sido deixado para trás, e Senna começou a segunda volta já na liderança.

 

Ele seguraria essa posição por outras 75 voltas. Sim, houveram momentos – um ou dois se não me engano – em que Ayrton perdeu a liderança temporariamente devido à troca de pneus. Uma coisa ajudou Senna: começou a chover forte. No começo da prova, o asfalto já estava molhado, é verdade. Mas a água começou a despencar para valer bem depois de Senna já estar em primeiro. Todo mundo achava que o tempo ia abrir, então a maioria dos pilotos começou a prova com pneus slick. Inclusive Ayrton. Porém, o que ele fez foi – assim como fazia com os motores – aproveitar o máximo do pneu seco, indo trocar ele pela primeira vez no momento em que seus oponentes mais próximos já estavam na segunda ou terceira troca (caso de Prost). Com isso, conseguiu abrir uma vantagem grande, e, nas últimas voltas, tinha colocado uma volta, uma volta e meia de vantagem do 3º e 4º colocado. Sua vantagem sob Prost era de um minuto.

 

As leis da física (e do automobilismo) mandam o piloto usar pneus adequados com as condições da pista: secos (seca) e de chuva (ou ‘biscoito’ como era chamado antigamente) quando a pista está molhada ou quando há grande chance de precipitação. Porém, elas não se aplicavam a Ayrton, que conseguiu controlar seu carro mesmo sobre a pista molhada, com pneus lisos. Trocou de pneus quatro vezes: colocou pneus ‘biscoito’ quando possuía 22 segundos de vantagem sobre Prost e, logo trocou de volta para lisos. Depois, lá pela volta 55, trocou de novo para pneus de chuva, e logo depois para lisos, finalizando a corrida com esses pneus. Prost, o ‘Professor’ nada ousado, trocou nada menos do que sete vezes! Resultado: Senna ganhou com uma distância de 1min23s sobre Prost.

A McLaren MP4/8 de Senna, #8, está até hoje em exposição no circuito de Donington Park, junto com a bandeira que o piloto usou ao fim da prova.

Quem quiser ver (ou rever) a prova, aqui está o vídeo, na íntegra:

** *

É importante lembrar do tão combalido Rubens Barrichello. Ele, que, acabou de assinar para correr na Fórmula Indy nessa temporada. Pois bem: o que Barrichello fez nessa corrida foi digno do feito de Senna e Bellof em 1984: Largou na 12ª colocação, à bordo de um humilde Jordan, equipado com motor Hart (da mesma casa do motor de Senna em 1984) 3.5 V6. Após duas voltas, já estava em quarto. Na volta de número 51, Barrichello ficou em segundo, após o carro de Prost ‘morrer’ nos boxes. Depois, foi ultrapassado e ficou em terceiro por quatro voltas. Na volta 56, seu carro parou devido a um problema do carro, com a bomba de combustível. Nada a ver com sua pilotagem.

 

Aliás, Barrichello possui duas vitórias em GPs da Europa, feito só igualado pelos campeões Fernando Alonso e Sebastian Vettel. Superado, só por Schumacher (que possui seis vitórias). O ano de 1993 foi extremamente proveitoso para Rubinho: terminou em terceiro no GP do Pacífico e largou na Pole no GP da Bélgica. É triste, porém, o que grande parte da mídia nacional e a imensa maioria dos torcedores de F1 do Brasil fizeram com o piloto, tratando-o como um piloto inferior ou lento. Teve de viver sob a sombra de um gênio, e nunca foi reconhecido pelo que é, um ótimo piloto (ainda que não tenha sido um gênio). Na Inglaterra, há uma base grande de fãs de Rubinho, e, aposto, o próprio Senna não concordaria com o tratamento que dão ao Barrichello por aqui. Para os que gostam do programa da BBC Top Gear, dois vídeos divertidos com a participação de RB:

 

 

 

Links Automaníacos

A Enciclopédia do Automobilismo Brasileiro – Belo trabalho organizado por Carlos de Paula

A Morte de Senna – Reportagem emocionante, comovente e em alguns momentos chocante sobre a morte do nosso maior ídolo do automobilismo, pelo jornalista Lívio Oricchio (40 páginas).

Senna e o Alemão (não, não era o Schumacher)

Monaco, julho de 1984. Ayrton Senna dirigia um carro de Fórmula 1 definitivamente inferior aos das grandes escuderias. Era o famigerado Toleman TG184, com motor Hart 415T, 1.5. Foi com esse carro que Senna saiu em 13º e acabou a prova em 2º lugar, feito bem retratado no filme recente de Asif Kapadia, Senna. Nas últimas voltas, Senna chegou a estar a 4,5 segundos atrás do primeiro colocado, o piloto que ganharia a prova, Alain Prost.

Contudo, por mais magnífico que Senna fosse – e ele certamente foi – um outro jovem talento despontava naquela prova: o alemão Stefan Bellof.

Dois anos e meio mais velho do que Senna, com 26 anos, Bellof, assim como o brasileiro, fazia sua estreia na Fórmula 1 naquela temporada, por outra equipe inglesa, a Tyrrell. E, naquela tarde chuvosa em Monte Carlo, embora chegasse em terceiro lugar, atrás de Senna e Prost, seu feito não foi menor do que o de nenhum dos dois. Saiu em 20º, e, com o carro da Tyrrell equipado com motor Ford Cosworth 2.9, chegou em terceiro. Está certo que há uma controvérsia toda em torno do Tyrrell 012, um carro cheio de irregularidades, o que custou à equipe um banimento da temporada de 1985 imposto pela FISA. Porém, não deixa de ser algo louvável, numa pista traiçoeira, molhada, cheia de grandes nomes do automobilismo da época, como Prost, Lauda, Mansell, Picquet, ganhar 17 posições. E mais: as estatísticas diziam que, no exato momento em que Senna estava a 4,5 segundos de Prost, pouco antes dos juizes decidirem terminar a prova, Bellof, mantida a corrida e seu ritmo, (e todas as variáveis continuassem iguais, tanto da parte de Senna quanto de Prost), chegaria em Prost em 4 segundos, pois ia mais rápido que Senna. Isso foi dito na transmissão do evento, à época. Muitos anos depois, soube-se que Senna estava com a suspensão nas últimas, quando a corrida terminou, à 31 voltas, e, com isso, Bellof – continuada a corrida – deveria ultrapassar tanto Senna quanto Prost.


Bellof é  o grande ídolo e a inspiração  de Michael Schumacher. Até hoje, mantém o recorde de tempo, como a volta mais rápida no anel norte (Nordschleife) do lendário autódromo Nürburgring: percorreu os quase 21 km em 6min11s, à bordo de um Porsche 956.

Assim como Senna, morreu num acidente em pista, um ano depois do GP de Monaco, aos 27 anos, quando corria as Mil Milhas de Spa-Francorchamps, a bordo do mesmo Porsche 956 com o qual quebrou o recorde da mais famosa pista do automobilismo europeu.

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